08 agosto, 2011

Pra tentar conseguir dormir.

Tosse tosse tosse

Não dorme de tanto que o pulmão reclama. Quando era com a filha era ele quem vinha preocupado olhar pela fresta da porta, ver se tava tudo bem, oferecer mel. Hoje é ela quem não dorme, preocupada, mas sem saber como oferecer ajuda.

Sensação estranha. De ser breve, de ser finita, de estar olhando pras coisas erradas, correndo demais, olhando pra ponta do dedo ao invés de olhar pra lua que o dedo aponta.

O sonho e o trabalho dele foram para construir a família perfeita. Casa bonita, comida bem feita, boas escolas, valores corretos... Tudo como manda ainda a cartilha da finada vó. Coisa estranha a vida. Saiu tudo por outro trilho, principalmente as meninas. Não ficaram na barra da saia da mãe, recitando a cartilha da vó. Foram pro mundo, pro delas, interno, sozinhas ou pro desconhecido, das gentes, das coisas, do que a vó alertava. Quanto desapontamento isso causa, fica se perguntando. Acha impossível de mensurar pelos olhos de filha.

Outra, família grande. Sinônimo de festa, de bagunça, de barulho, burburinho de gente, né? Não aqui. Sete gentes familiares morando sozinhas nos seus mundos. Faltaram as aulas da vida de como encostar no outro pra passar afeto, como dizer que ama com as cordas vocais, com o abraço, um toque no ombro. Todos juntos, separados. Será que se pode culpar alguém?

Tosse tosse tosse no quarto do lado.

De repente os anos todos de revolta, de afastamento, de afirmação ganhando o mundo perdem todo sentido, viram caprichos, erro de foco. A vida também tava e tá um tanto ali, debaixo do nariz, no quarto do lado, se esvaindo em tosse. Ela vai ouvindo e se arrependendo dos olhares gelados, de maldizer, de se afastar. Difícil dormir com o rosto molhado. A vontade era cruzar as duas portas e deitar perto do pai como quando era criança, pedindo um abraço, cuidando. Mas tudo é rancor, tudo é orgulho, tudo é meio dito e nada se resolve entre esses.

Só quer mostrar que gosta. Como aprende isso? A voz, sabe usar; mãos, braços, pernas, não têm nenhuma disfunção de movimento; as palavras, sabe quais são, já ouviu tantas vezes em filmes, na vida, já falou pra outras pessoas, de outros lugares; o que sente sabe também. Parece que o problema é só juntar tudo.

Como aprende isso antes de morrer?


18 agosto, 2010

absurda vida privada

Eu quero morrer! Eu quero morrer! Ela gritava, vibrando o rosto e chamando atenção dos passantes. Os dois pequenos, um com uns 9, outro duns 7, olhavam atônitos, levando sabe o quê daquilo consigo. Vocês tão loucos? Você é adulto? Quem é adulto aqui? Eram duas mulheres, de meia idade. O cabelo e as roupas contavam o tanto que haviam esquecido de si, sem dúvida um sacrifício pelos filhos. O menino mais velho era o filho, o outro, um amigo. Tinham acabado de voltar ao ponto de encontro de onde saíram sem que as duas se dessem conta. Eu nunca mais vou sair com você! Os gritos ecoavam, os dois iam diminuindo, encurralados contra a parede. Os seguranças que haviam sido acionados, se afastavam. Os passantes fingiam ignorar. As moças iam crescendo, as madeixas avermelhadas se armando, os olhos, arregalando, a voz afinando Agora você só vai sair com seu pai! um olhar descuidado veria monstros ao invés de gente Eu quero morrer!!

Numa fresta de espaço entre os gritos, a única coisa que o menino conseguiu fazer foi balbuciar em meio às lágrimas necessárias, nervosas e cheias de vergonha é que eu queria ir no banheiro...

MIJA NAS CALÇAS!!

E não há mais nada o que escrever.

04 fevereiro, 2010

Aí minha mãe leu.

Seu texto me fez lembrar de Cora Coralina.

Sempre relacionei esse texto à vó Maria.

Transcrevo-o (não tenho seu dom de escrever) com três pequenas alterações que o tornam ainda mais significativo.


Estas mãos


Olha para estas mãos
de mulher roceira,
esforçadas mãos cavouqueiras.

Pesadas, de falanges curtas,
sem trato e sem carinho.
Ossudas e grosseiras.

Mãos que jamais calçaram luvas.
Nunca para elas o brilho dos anéis.
Minha pequenina aliança.
Um dia o chamado heróico emocionante:
– Dei Ouro para o Bem de São Paulo.

Mãos que varreram e cozinharam.
Lavaram e estenderam
roupas nos varais.
Pouparam e remendaram.
Mãos domésticas e remendonas.

Íntimas da economia,
do arroz e do feijão
da sua casa.
Do tacho de cobre.
Da panela de barro.
Da acha de lenha.
Da cinza da fornalha.
Que encestavam o velho barreleiro
e faziam sabão.

Minhas mãos doceiras...
Jamais ociosas.
Fecundas, imensas e ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar, ajudar,
unir e abençoar.

Mãos de semeador afeitas
à sementeira do trabalho.
Minhas mãos raízes
procurando a terra.

Semeando sempre.
Jamais para elas
os júbilos da colheita.

Mãos tenazes e obtusas,
feridas na remoção de pedras e tropeços,
quebrando as arestas da vida.
Mãos alavancas
na escava de construções inconclusas.

Mãos pequenas e curtas de mulher
que só se preocupou com a família na vida. (
que nunca encontrou nada na vida.)
Caminheira de uma longa estrada.
Sempre a caminhar.
Com Maria a rezar, (
Sozinha a procurar,)
ao Pai do céu e a Jesus, (
o ângulo perdido) , a pedra rejeitada



Bjs, Sandra Maria